Pesquisa revela como a origem social influencia os modelos de sucesso entre jovens

As experiências de vida e as oportunidades disponíveis influenciam a maneira como os jovens enxergam o sucesso, o trabalho e as pessoas que admiram. Essa é uma das conclusões de um estudo conduzido por Tiago Gusmão, palestrante, educador socioemocional e pesquisador em Educação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP), que investigou como estudantes de diferentes realidades socioeconômicas constroem suas referências e perspectivas de futuro.

A pesquisa inicial, publicada pelo The Good Project, iniciativa de investigação do Projeto Zero da Escola de Pós-Graduação em Educação de Harvard, envolveu 90 estudantes de duas escolas paulistanas com perfis socioeconômicos distintos. Os participantes responderam à pergunta: “Quem, na sua opinião, realiza um bom trabalho?”. A partir das respostas, o pesquisador analisou quem eram as pessoas admiradas pelos jovens e quais valores justificavam essas escolhas.

Entre as personalidades mais citadas estava o jogador Neymar Jr. As justificativas, porém, revelaram diferentes interpretações sobre a mesma figura pública. Enquanto alguns estudantes destacaram a excelência, a competitividade e a capacidade de construir uma carreira para além do futebol, outros valorizaram a origem humilde do atleta, a superação de dificuldades, o apoio à família e as iniciativas sociais.

“O mais interessante não é descobrir quem o jovem admira, mas entender melhor de onde vem essa admiração. Dois jovens podem citar exatamente a mesma referência e enxergar valores completamente diferentes nela. É nessa explicação que aparecem suas experiências, seus sonhos e a forma como imaginam o próprio futuro”, explica Gusmão.

Os resultados também apontaram diferenças entre os valores destacados pelos participantes de acordo com o contexto socioeconômico. Na escola com menor vulnerabilidade, independência, sucesso e visão tiveram maior evidência. Já entre os estudantes da instituição com maior vulnerabilidade socioeconômica, apareceram com mais frequência aspectos como fé, compromisso, coragem e relacionamentos.

As mães foram as pessoas mais mencionadas pelos participantes, especialmente entre os estudantes da escola com maior vulnerabilidade socioeconômica. Neymar Jr. apareceu em seguida entre as referências mais citadas, ao lado de nomes como a influenciadora Virginia Fonseca, professores, pais e políticos.

Para o pesquisador, os achados demonstram a importância de considerar as experiências individuais ao abordar as expectativas dos jovens sobre o futuro.

“Eles organizam seus propósitos de formas diferentes, de acordo com as experiências que tiveram e os desafios que enfrentam”, explica.

A compreensão dessas diferenças pode contribuir para que escolas e educadores desenvolvam atividades mais próximas da realidade dos estudantes, considerando as referências que já possuem e apresentando novas possibilidades de formação, trabalho e realização pessoal.

Uma descoberta na biblioteca mudou sua trajetória

O interesse de Tiago Gusmão pelo tema também está relacionado à própria história. Criado em Pirituba, na zona norte de São Paulo, ele estudou em escolas públicas e cresceu em uma família formada por um comerciante e uma dona de casa. Na adolescência, durante uma visita a uma biblioteca pública do bairro, ouviu uma informação que mudou sua percepção sobre o acesso ao ensino superior: “A USP é de graça”.

Até aquele momento, a universidade parecia distante de sua realidade financeira. “Na minha cabeça, universidade era coisa para gente rica. Eu pensei: ‘universidade é um lugar que eu não posso pagar’. Quando aquela pessoa me falou que a USP era de graça, aquilo acendeu uma luz. Como assim a USP é de graça?”, relembra.

A descoberta o motivou a buscar uma bolsa de estudos no Cursinho da Poli, iniciativa voltada à preparação de estudantes para os vestibulares. Durante três anos, conciliou os estudos com o trabalho ao lado do pai até ingressar na Universidade Estadual Paulista (Unesp), onde se formou em Química.

Anos depois, uma experiência na Tailândia, em uma escola dedicada ao desenvolvimento integral dos estudantes, transformou sua visão sobre educação e despertou seu interesse pela área socioemocional. O tema também foi abordado em sua palestra no TEDxUni Anchieta, realizada em 2024.

Desde então, Gusmão passou a combinar a experiência prática com a pesquisa acadêmica, investigando como os jovens desenvolvem seus valores, identificam referências e constroem seus projetos de vida.

“Quando ampliamos o acesso à educação e a novas referências, ampliamos também o horizonte de possibilidades que esses jovens conseguem enxergar para o próprio futuro”, afirma.

Educação e novas referências ampliam perspectivas

Atualmente, o pesquisador articula estudos e experiências educacionais para compreender como jovens de diferentes contextos sociais desenvolvem suas percepções sobre sucesso, trabalho e propósito. Essa abordagem também se relaciona a iniciativas como a Cidadão Pró-Mundo (CPM), organização sem fins lucrativos que há quase 30 anos oferece cursos gratuitos de inglês para jovens e adultos de 14 a 25 anos, estudantes de escolas públicas e bolsistas.

Além do aprendizado de um novo idioma, a proposta permite que os participantes tenham contato com pessoas, histórias e experiências que podem ampliar suas perspectivas acadêmicas e profissionais.

Na avaliação de Gusmão, o acesso a novas referências pode ser determinante para que os estudantes reconheçam oportunidades que antes não faziam parte de seu horizonte. “Às vezes, o jovem precisa desse clique. Alguém que chega e fala: ‘Olha, existe esse caminho’. Foi isso que aconteceu comigo na biblioteca”, pontua.

O educador também destaca o papel do inglês na aproximação entre diferentes culturas. Durante a graduação, ele recebeu uma bolsa para estudar em Portugal e acreditava que não precisaria aprender outro idioma por estar em um país de língua portuguesa. A convivência com estudantes internacionais, no entanto, mostrou uma realidade diferente.

“No final da faculdade, quando ganhei uma bolsa para Portugal, eu pensei: ‘É português, não preciso falar outro idioma’. Mas me colocaram em uma ala de estudantes internacionais e eu dividi meu quarto com um egípcio. Ele falava comigo em inglês e eu não sabia falar. Foi nessa época que eu testemunhei, pela primeira vez, uma conversa em inglês na minha frente. Eu pensei: ‘Caramba, é verdade que as pessoas usam inglês”, comenta.

A Cidadão Pró-Mundo também conta com voluntários que atuam como professores de inglês, promovendo a troca de experiências entre pessoas com trajetórias distintas. Para Gusmão, essa convivência contribui tanto para a formação dos alunos quanto para o desenvolvimento de quem ensina.

“Muitas vezes, existem possibilidades que simplesmente ainda não fazem parte do repertório daquele jovem. Quando ele conhece novas pessoas, aprende um idioma ou entra em contato com outras experiências, amplia também aquilo que consegue imaginar como possível para a própria vida”, complementa Gusmão.

A pesquisa reforça a importância de compreender os jovens a partir de suas realidades e experiências, reconhecendo que suas aspirações são construídas em diferentes condições sociais. Nesse contexto, ampliar o acesso à educação, ao convívio com novas referências e a oportunidades de desenvolvimento pode ajudar a tornar mais diversos os caminhos que cada estudante consegue imaginar para o próprio futuro.

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