Acacci oferece perucas gratuitas e fortalece autoestima de jovens em tratamento oncológico
A queda de cabelo durante o tratamento contra o câncer representa um impacto que vai além da aparência física para crianças e adolescentes. A mudança afeta a autoestima, a identidade e a forma como esses jovens se reconhecem. Atenta a esse aspecto sensível do tratamento, a Associação Capixaba Contra o Câncer Infantil (Acacci) mantém, há mais de dez anos, um trabalho contínuo de doação de perucas naturais, personalizadas e gratuitas para crianças e adolescentes assistidos pela instituição.
A iniciativa é realizada desde 2012 por meio de uma parceria com a profissional Maria Núbia Souza Vieira Lucas, que atua há 28 anos na confecção de perucas sob medida. Há 16 anos no Espírito Santo, Núbia mantém um espaço próprio em Laranjeiras, no município da Serra, de onde desenvolve o trabalho que beneficia diretamente crianças e adolescentes em tratamento oncológico atendidos pela Acacci.
O compromisso estabelecido garante que nenhuma criança tenha custos com o acessório.
“Eu não cobro peruca pra criança, independente da condição financeira dos pais. Qualquer criança que chegar aqui em tratamento não vai pagar. Ela só vai receber, e a peruca é personalizada”, afirma.
As perucas são produzidas a partir de fotos encaminhadas pelas famílias ou pela própria Acacci, respeitando características como cor, comprimento e estilo do cabelo. Núbia explica que não recebe doações diretamente. “Quem recebe as doações de cabelo é a Acacci, que depois me repassa. A partir disso, eu faço a peruca de acordo com a foto da criança ou do adolescente”, diz.
Segundo a artesã, o trabalho com o público infantil tem um significado especial. “É um prazer poder ajudar uma criança ou adolescente. Tem gente que acha que cabelo não faz diferença para criança, mas faz sim”, afirma.
Ao longo dos anos, algumas entregas ficaram marcadas pela emoção. Uma delas foi a de um menino entre sete e oito anos, que tinha o mesmo nome de seu filho. “Quando ele colocou a peruquinha, o olhinho dele chegava a brilhar. Ele ficou muito feliz, encantado. A família sabia que ele não tinha mais chance de continuar a vida, e aquilo foi muito tocante. Eu fiquei muito emocionada, não consegui segurar o choro”, relata.
Outra cena inesquecível envolveu uma menina de cerca de cinco anos. “Ela colocou a peruca e saiu correndo pelo espaço, jogando o cabelo pra lá e pra cá, pulando e dizendo ‘Mamãe, meu cabelo!’. Todo mundo ficou empolgado. É um momento que não tem preço”, conta.
Para Núbia, cada entrega reafirma o sentido da escolha pela profissão. “Toda vez que vou entregar uma peruca é emocionante. Dá um gás, renova a energia. Às vezes a gente se desanima com o ser humano, com gente que só pensa em dinheiro. Aí eu vou fazer uma entrega na Acacci e aquilo me renova. São 28 anos fazendo isso. Foi essa profissão que me escolheu, e eu sou muito feliz fazendo o que faço”, afirma.
A superintendente executiva da Acacci, Luciene Sales Sena, destaca que a doação das perucas integra um cuidado que vai além do tratamento médico. “Cada criança ou adolescente reage de uma forma ao tratamento, e algumas sentem muito a perda do cabelo. Quando isso acontece, a peruca tem um papel importante no resgate da autoestima e da confiança”, afirma.
Ela reforça que o impacto do gesto é essencialmente emocional.
“Não estamos falando apenas de cabelo. Estamos falando de identidade, de alegria e de momentos de felicidade em meio a um processo tão difícil. Ver uma criança sorrir ao se olhar no espelho mostra o quanto esse gesto faz diferença”, diz.