ESG, faltam recursos ou faltam projetos? A desconexão que trava a transformação

Nos últimos anos, o termo ESG, sigla para práticas ambientais, sociais e de governança, tornou-se recorrente nos discursos corporativos. Relatórios promissores, selos verdes, metas alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e até mesmo setores inteiros destinados a práticas socioambientais multiplicaram-se em empresas de todos os portes. No entanto, apesar da narrativa otimista, a prática tem se revelado inconsistente. A percepção de que faltam recursos para projetos ESG é comum, mas talvez a pergunta deva ser invertida: não estariam faltando bons projetos para os recursos já disponíveis?

A realidade mostra um desalinhamento profundo entre os projetos de impacto e os setores empresariais que desejam (ou dizem desejar) financiá-los. De um lado, há organizações sérias, que enfrentam dificuldades para captar recursos mesmo apresentando soluções sustentáveis e socialmente relevantes. De outro, empresas que buscam iniciativas ESG apenas como fachada, rápidas, baratas e midiáticas. Essa lógica de ESG de palco, pautada em greenwashing e ações pontuais sem profundidade, desvaloriza a cadeia produtiva envolvida, ignora o tempo natural de maturação dos projetos e reduz o impacto real a uma questão estética. Não é que falte dinheiro, é que falta conexão honesta entre quem faz e quem financia.

Enquanto algumas companhias exemplares de fato reorganizaram suas estruturas, enfrentando perdas e riscos para consolidar práticas sustentáveis genuínas, a maioria ainda resiste em enxergar o ESG como parte do core business. Preferem soluções de curto prazo que garantam retornos de imagem imediatos, mesmo que ineficazes no médio e longo prazo. Pior: tratam os profissionais e organizações responsáveis por essas ações como meros fornecedores de conteúdo institucional. A consequência é óbvia, projetos transformadores são descartados por “não caberem no orçamento”, enquanto se investe em campanhas superficiais que “parecem ESG”.

A verdade é que o ESG não fracassa por ausência de recursos, mas por falta de critérios e credibilidade nos projetos apresentados. Um projeto de impacto precisa ir além do propósito, ele precisa ser compreendido como investimento e não como custo. E para isso, deve apresentar indicadores confiáveis, dados transparentes, comunicação clara e alinhamento real com os princípios da empresa. Não basta inspirar, é preciso evidenciar. As empresas estão em busca de projetos que entreguem resultados tangíveis, com metodologias sólidas e capacidade de mensuração do impacto gerado. Isso exige preparo, planejamento e, sobretudo, paciência.

Credibilidade não nasce do dia para a noite. Como na natureza, o processo é invisível antes de ser visível. As raízes de um projeto socioambiental precisam ser cultivadas com confiança, presença e consistência. Muitos projetos fracassam não pela falta de valor, mas pela incapacidade de traduzir esse valor em linguagem empresarial. Falta uma ponte entre os mundos: entre quem idealiza e executa soluções de impacto e quem toma decisões de investimento nas empresas.

A solução passa por três eixos fundamentais: educação para ambos os lados, mecanismos de tradução de impacto em valor de negócio e mediação qualificada. Empresas precisam compreender que projetos de impacto real exigem tempo, envolvimento comunitário, metodologias específicas e resultados que nem sempre são imediatos, mas que geram transformações profundas. Projetos, por sua vez, precisam ser robustos em sua proposta e em sua forma de apresentação, com dados, metas e indicadores que comuniquem seu valor com clareza e transparência. E é essencial que existam profissionais e estruturas capazes de fazer essa ponte, conectar realidades, traduzir expectativas, alinhar propósitos.

Ou seja, o ESG que realmente transforma não se resume a planilhas superficiais nem a discursos oportunistas. Ele exige maturidade, coragem e comprometimento genuíno. A verdadeira escassez não está nos recursos financeiros, mas na vontade de construir relações autênticas e estratégias sólidas. É tempo de olhar menos para a vitrine e mais para a raiz, onde estão os fundamentos da mudança que se deseja promover.

 

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Sobre a autora

* Paula Mazzola é psicopedagoga, escritora e comunicadora. Fundadora da ASTERA, rede catalisadora de soluções baseadas na natureza (SbNs), lidera projetos multissetoriais voltados à regeneração ecológica, educação ambiental, inclusão e sustentabilidade. Idealizadora do premiado projeto “RegenerAção em São Sebastião” e autora da trilogia “Atequenfim”, é membro do Conselho Deliberativo da SAVE Brasil e da Comissão Agro da Board Academy. Atua nacional e internacionalmente como facilitadora em formações de liderança ecossistêmica, ESG e ODS.  

 


Destacamos que o conteúdo deste artigo representa a opinião do autor(a), que é o responsável integral pelas informações compartilhadas. Este texto não traduz as ideias do Portal UmSocial de nenhuma forma e não pode ser usado como tal.

 

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