Estudo mostra avanço na presença de personagens negros em novelas

O fim da novela Vale Tudo reacendeu o debate sobre a representatividade racial na teledramaturgia brasileira. A carreira de Taís Araújo, uma das principais atrizes negras da televisão, exemplifica tanto os avanços na visibilidade de artistas pretos quanto os limites que ainda persistem nas narrativas. Esses dados são detalhados no estudo “Televisão em Cores? Raça e gênero dos atores das novelas da Rede Globo (1977–2023)”, realizado pelo Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA/IESP-UERJ).

A pesquisa analisou 254 novelas exibidas entre 1977 e 2023 e aponta crescimento histórico da presença de personagens não brancos, embora ainda distante da composição racial do Brasil. Ao longo de toda a trajetória, 86,4% dos personagens eram brancos, 7,9% pretos e 5% pardos.

Nos últimos anos, a inclusão tem avançado. Em 1977, apenas 7% dos personagens eram não brancos. Esse número passou para 24% em 2022 e atingiu 37% em 2023, o maior índice da história da emissora. Novelas recentes como “Vai na Fé” e “Amor Perfeito” destacaram-se com 43% e 45% de elenco não branco, respectivamente. Apesar do crescimento, os números ainda estão abaixo dos 56% da população brasileira que se autodeclara preta ou parda, segundo o Censo Demográfico de 2022 do IBGE.

O estudo também mostra que os personagens negros continuam concentrados em núcleos secundários. “Nas histórias principais, onde estão os protagonistas, apenas 8% dos personagens são não brancos, enquanto nas tramas paralelas a proporção sobe para 18%. Ou seja, a presença negra aumentou, mas ainda é mais comum nos núcleos secundários, com menor tempo de tela e prestígio”, observa João Feres Júnior, coordenador do GEMAA.

Em 2023, homens não brancos representaram 20% dos personagens e mulheres não brancas 16%, estabelecendo marcas históricas para a teledramaturgia nacional. Para os autores Marcelle Felix, João Feres Júnior e Luiz Augusto Campos, os dados refletem um esforço consistente da emissora em ampliar a diversidade no elenco, especialmente após 2015, mas ainda insuficiente para representar plenamente a pluralidade racial do país.

“As novelas têm um papel simbólico poderoso na forma como o Brasil se vê. O aumento de personagens negros é um avanço, mas é preciso que eles também estejam no centro das histórias e não apenas como coadjuvantes”, reforça Feres.

O GEMAA alerta que, embora a televisão não precise reproduzir a sociedade de forma literal, é fundamental que não perpetue distorções históricas na representação racial. O estudo indica que a teledramaturgia brasileira vive um momento de transformação, e o desafio é garantir diversidade tanto na tela quanto nos papéis de destaque dentro das histórias.

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