Filantropia estratégica: transformar em vez de apenas doar

A Pesquisa Doação Brasil, do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS), aponta que 78% dos cidadãos acima dos 18 anos e com rendimento familiar superior a um salário mínimo fizeram ao menos um tipo de doação em 2024, com arrecadação de R$ 24,3 bilhões. Números como esses revelam a generosidade, mas também um padrão: a maior parte das doações é pontual e emergencial. Cestas básicas, roupas e campanhas imediatas para o levantamento de recursos financeiros aliviam o sofrimento, mas não alteram estruturas que produzem desigualdade.

Diante disso, a filantropia estratégica propõe um salto qualitativo. Em vez de atos isolados, defendem-se investimentos orientados por metas de longo prazo, indicadores de impacto e compromisso de continuidade. O objetivo é empoderar comunidades, ampliar capacidades locais e fomentar mudanças que perdurem além da urgência.

Exemplos mostram o caminho: o Instituto Unibanco, com o programa Jovem de Futuro, atua na melhoria do ensino médio público. O Instituto Natura apoia políticas de educação e sustentabilidade. Internacionalmente, a Fundação Bill & Melinda Gates demonstra que investimentos contínuos e bem avaliados podem acelerar a eliminação de doenças e promover a inovação social.

Pessoas físicas e jurídicas têm papel essencial neste cenário: direcionar recursos a fundos patrimoniais, apoiar projetos escaláveis e exigir transparência. Além disso, é importante articular a filantropia com políticas públicas. As Organizações da Sociedade Civil (OSCs) não substituem o Estado, mas podem testar soluções, demonstrar eficácia e ampliar projetos bem-sucedidos.

Se a meta é reduzir desigualdades históricas, é hora de sair da ajuda pontual e investir em causas estruturantes. Que a generosidade brasileira se converta em planejamento para fortalecer comunidades, inspirar iniciativas pioneiras e construir um país mais justo e resiliente. A filantropia estratégica é, portanto, um investimento em democracia e futuro.

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Sobre a autora

*Luana Ramon é psicóloga formada pelo Centro Universitário da Serra Gaúcha (FSG). Possui especialização em Terapia Cognitivo-Comportamental pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) e, atualmente, cursa a especialização em Psicopatologia pelo Grupo Psicologia Baseada em Evidências (Grupo PBE). Iniciou sua trajetória junto à Parceiros Voluntários Caxias do Sul em 2016, como estagiária. Ocupou cargo administrativo e de coordenação. Desde 2023, atua como diretória voluntária da entidade.

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