Milhões de refeições são servidas diariamente nas escolas públicas brasileiras, e agora essa rotina começa a ganhar um novo papel em algumas cidades: o de motor de transformação social e ambiental. É esse o objetivo do PNAE Agroecológico, projeto que conecta a merenda escolar à produção agroecológica da agricultura familiar, criando um sistema de abastecimento mais saudável, sustentável e justo para agricultores e estudantes.
A iniciativa, que entra em sua segunda fase em 2025, combina diagnósticos locais, articulação de políticas públicas e parceria com agricultores e gestores municipais. O trabalho é coordenado pelo Instituto Comida do Amanhã em conjunto com o Instituto Regenera e o Instituto Fome Zero, com apoio do Centro de Excelência contra a Fome do Programa Mundial de Alimentos no Brasil e da Fundação Rockefeller.
O projeto tem duração prevista de quatro anos e foi lançado com um edital para selecionar municípios interessados em aproximar a alimentação escolar da produção agroecológica. Mais de 40 cidades se inscreveram e os escolhidos para os projetos-piloto foram Caruaru, em Pernambuco, São José dos Pinhais, no Paraná, um grupo de municípios paraenses formado por Barcarena, Abaetetuba, Marituba e Benevides, e outro no Rio Grande do Sul com Caxias do Sul, Antônio Prado, Ipê, Montenegro e Porto Alegre.
Nos primeiros meses de trabalho, a equipe realizou visitas de campo, reuniões com prefeituras, cooperativas e organizações locais e elaborou diagnósticos sobre os sistemas alimentares de cada território. A partir daí, começa a etapa de codesenho, em que serão construídas propostas conjuntas para ampliar a compra de alimentos agroecológicos pela rede pública de ensino.
“Ao longo deste ano, estamos trabalhando com quatro grupos de cidades na construção de projetos estruturantes, que chamamos de projetos-pilotos. A ideia é que essa metodologia possa ser aplicada também em outros municípios, ampliando o impacto da iniciativa. Nosso objetivo é entender o que funciona e o que não funciona nos contextos reais, considerando as especificidades dos programas de alimentação escolar, da base produtiva local e da agricultura familiar em cada território”, explica Juliana Tângari, diretora do Instituto Comida do Amanhã.
Ela acrescenta que a proposta é cocriar soluções práticas para uma transição agroecológica duradoura. “Sabemos que esse é um processo de médio e longo prazo, mas acreditamos que essa construção coletiva gera legitimidade e aumenta as chances de sucesso das políticas públicas. Por isso, damos ênfase ao diagnóstico territorial e à escuta: ouvir as pessoas, suas histórias e seus desafios é essencial para orientar as intervenções.”
No Pará, o município de Abaetetuba já sente os primeiros efeitos da iniciativa.
“Está sendo muito importante para o município fazer essa transição. A gente que atua nas comunidades vê que os produtores perderam um pouco essa parte agroecológica. Levar para eles essas políticas públicas será importante para o desenvolvimento do município”, afirma Túlio Castro de Herda Costa, diretor de Desenvolvimento Econômico Rural da Secretaria de Agricultura.
Em Pernambuco, Caruaru também aposta no projeto como oportunidade para fortalecer a agricultura familiar e valorizar os alimentos sem agrotóxicos.
“Queremos ser um case de sucesso em transição agroecológica. Que a agroecologia seja valorizada nos editais, que os produtos sem agrotóxicos recebam o reconhecimento merecido, e que possamos fortalecer essas famílias agricultoras e fomentar a sucessão rural no campo”, afirma Tayana Medeiros, gestora municipal.
Além da atuação local, a equipe do PNAE Agroecológico também estuda ajustes na regulamentação do Programa Nacional de Alimentação Escolar e nas políticas federais voltadas à agroecologia.
“O Brasil já tem avanços importantes nesse campo e é fundamental dar visibilidade a essas conquistas, ao mesmo tempo em que propomos os próximos passos para que o PNAE continue sendo uma referência internacional em alimentação saudável, sustentável e inclusiva”, completa Juliana.